Marcelo Gianini


PROCESSOS DE CRIAÇÃO COMO PRÁTICA PEDAGÓGICA - Marcelo Gianini

Referências
bibliográficas


GIANINI, Marcelo. Processos de criação como prática pedagógica. In: V Congresso Abrace, 2008, São Paulo. Memória Abrace. São Paulo : ABRACE, 2008.
Breve resumo

Este artigo é fruto de reflexões sobre o ensino de teatro a partir das experiências artísticas e pedagógicas do autor tendo como base o pensamento filosófico de Gilles Deleuze. Ele Propõe quatro questões: 1) se criar é enfrentar o caos, como propõe DELEUZE (1992), como “ensinar a criar”? 2) qual deve ser a formação do professor de teatro? 3) o jogo teatral pode ser um criador de linhas de fuga? 4) montar ou não montar um espetáculo teatral com iniciantes?

Transcrições de citações mais importantes


A pesquisa abordará a metodologia e os procedimentos utilizados através do recorte de três processos de criação referenciais. Temas como jogos teatrais, a peça didática de Bertolt Brecht, o diálogo com a cena contemporânea e o processo colaborativo de criação serão abordados por meio do relato e da análise destes processos.

Aprendemos através da experiência, e ninguém ensina ninguém. (...) Se o ambiente permitir, pode-se aprender qualquer coisa, e se o indivíduo permitir, o ambiente lhe ensinará tudo o que ele tem para ensinar.”(1979; 3) spolin

Possibilidades de respostas podem ser dadas a começar por quem fará este processo de ensino. Será que uma pessoa sem experiência em criação artística, isto é, um não artista pode ensinar arte? Parece-me difícil, pois se essa pessoa não tem a experiência da criação de fissuras, como ensiná-las, como provocá-las? Um professor não artista talvez não tenha a experiência em se lançar na zona de turbulência. Ele pode até conseguir levar o aluno a esta zona, mas como ajudá-lo a formalizá-la, emoldurá-la, se ele não tem como compartilhar uma experiência similar?

Nesta trajetória de criação, como não repetir o caminho já conhecido? Como não cair no decalque de outros processos? Como não estratificar nossa performance, nossa criação? “Faz-se uma ruptura, traça-se uma linha de fuga, mas corre-se sempre o risco de reencontrar nela organizações que reestratificam o conjunto, formações que dão novamente o poder a um significante, atribuições que reconstituem um sujeito” (DELEUZE e GUATTARI, 1995; 18) Como fugir da resposta única? Da forma única de fazer? Da forma única de enquadrar? Da maneira única de formalizar?

Encontramos uma resposta possível no jogo. O jogo abre possibilidades de traçar novas linhas de fuga do próprio estrato teatral. O Jogo Teatral de Viola Spolin é privilegiado neste aspecto por trabalhar a partir da linguagem teatral. Ao propor um jogo de improvisação em que alguns elementos técnicos estão presentes (o Quem, o O Quê, o Onde e o Foco) e não deixar que os jogadores combinem previamente o Como, o Jogo Teatral cria a todo o momento novas possibilidades de solução, de jogo, de criação. Como não há um Como previamente combinado, não há uma forma a ser seguida. Todas as formas são bem vindas, são possibilidades de soluções. Não há nunca apenas uma solução, somente uma resposta. As repostas variam de grupo a grupo, de tempo a tempo, de espaço a espaço.



Comentário pessoal

A formação do professor de artes/teatro, como ser professor de teatro sem ser artista? Como ensinar algo que você não tem propriedade. Falta no curso de licenciatura, o estimulo a esse lado artista

Parece-me que em algum momento de um curso de iniciação teatral há que se formalizar a criação e apresentá-la. Convidar o público para participar. Fundamental também é não deixar que o espetáculo seja o fim, objetivo final, o ponto de chegada, a resposta certa, o pensamento único.

Utilização de materialidades no processo criativo



O mesmo acontece com os jogos de improvisação sugeridos por Ingrid KOUDELA nos trabalhos com as Peças Didáticas de Bertolt Brecht (1999). Colados ao texto, os jogadores ficam livres para descobrir novas formas de dizer o texto, abertos a novas conecções de frases e palavras, prontos para serem surpreendidos pelo acaso e, assim, acharem novos significados, novos pensamentos, novas molduras para o texto poético. O jogo de regras abre espaços, cria fissuras para que entremos nas zonas de turbulência.
FICHAMENTO

Uma última questão: montar ou não um espetáculo teatral com alunos de iniciação teatral? E, depois, apresentar ou não este espetáculo? Reavivaremos aqui a idéia de que o teatro se reduz, com a apresentação do espetáculo, a seu produto final? Reduziremos então, depois de todas as preocupações com a condução de um processo criativo, nosso teatro à apresentação? Ou abriremos mão dela, deixando de lado um dos elementos da tríade teatral, o público? Nos negaremos a este encontro? Renegaremos o diálogo? Ficaremos dentro de nossas fronteiras?