Pedagogia da Bobagem:
Uma pedagogia de palhaço na educação de adultos com
deficiência
intelectual - Laili von Czékus Flórez Cabalero
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Referências
bibliográficas
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CABALERO, Laili von
Czékus Flórez. Pedagogia da Bobagem: Uma pedagogia de palhaço na educação de
adultos com deficiência intelectual. In:
VI Congresso Abrace, 2010, São Paulo. Memória Abrace. São Paulo : ABRACE,
2010.
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Breve resumo
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A educação de
adultos com deficiência intelectual tem sido vista como uma grande
interrogação nas discussões em pedagogia, por apresentar desafios de escolhas
metodológicas e avaliação. A presença das artes nesse currículo resume-se com
freqüência a didáticas ultrapassadas, com escolhas previsíveis e limitantes,
e raramente inclui as artes cênicas como uma de suas possibilidades. O
palhaço tem em comum com o deficiente intelectual a curiosidade, a
espontaneidade e a pureza na exibição de suas bobagens. Uma pedagogia de
palhaço neste campo de ensino pode ir além de processos criativos baseados na
cópia e na repetição e trabalhar nos alunos o seu autoconhecimento, aceitação
de suas singularidades (valorizadas sob a ótica do palhaço) e consequente
maior segurança na sua inclusão social.
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Transcrições de citações mais
importantes
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A escolha do
palhaço deveu-se também à aproximação natural desse público específico com o
mundo da palhaçaria. São inerentes ao indivíduo com deficiência intelectual,
assim como às crianças e aos idosos, características que são típicas e
onipresentes no palhaço: a verdade, a pureza, a simplicidade, a liberdade de
jogar com os padrões sociais, o prazer de brincar, curiosidade.
Nesse
sentido, o palhaço possui uma conduta que não obedece à pauta moral da sociedade,
repleta de reflexões de causas e consequências, retrospectivas e projeções.
Sua lógica é própria e suas ações se assemelham a uma criança pequena, ou
um/a adulto/a quando não está sendo observado/a e suscetível ao julgamento de
outros/as. Suas decisões são frutos de suas ações, e suas ações frutos de
seus sentimentos. Da mesma forma, a pessoa deficiente intelectual “apresenta
particularidades em suas atitudes, pois a manifestação de suas necessidades e
sentimentos muitas vezes se faz por meio do comportamento” (EVANGELISTA,
2002, p. 245).
O
palhaço e a pessoa com deficiência intelectual têm em comum características
comportamentais, cognitivas e emocionais. Além disso, ambos ainda hoje sofrem
com atitudes de segregação e estigmatização: o/a deficiente é considerado/a e
tratado/a como ‘anormal’ pela sociedade e excluído/a de seus direitos de lazer,
participação política, saúde e educação; o palhaço, quando não é utilizado
enquanto apelido pejorativo, é considerado como representante de uma ‘arte
menor’.
Na
minha proposta enquanto pesquisadora e professora, o nariz possui papel
essencial e é apresentado aos alunos como uma possibilidade de ser e estar no
mundo em liberdade e plenitude; sua utilização é uma oportunidade de
desapegar de qualquer timidez ou tentativa de enquadramento, possíveis
resquícios de uma educação adestradora disfarçada em inclusão social.
A
verdadeira inclusão não se encontra na maquiagem e na ‘anormalização’ do
indivíduo, mas no trabalho da sua autoestima para que este se reconheça, nas
suas diferenças, cidadão do mundo.
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Comentário pessoal
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Um ótimo texto,
objetivo mostrando a metodologia de ensino a partir dos referenciais
artísticos da educadora. Ao apontar as semelhanças entre o palhaço e o
deficiente intelectual, a autora se coloca no mesmo lugar dos seus alunos
sendo ela mesma também uma palhaça.
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Utilização de materialidades no
processo criativo
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Nariz vermelho
Dentre eles,
destaco: o palhaço como dilatação do ridículo, o jogo e o autoconhecimento
como estratégias pedagógicas, o nariz vermelho
enquanto portal para a liberdade de ser.
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FICHAMENTO
Apesar
de acreditar o palhaço e o clown enquanto sinônimos e optar pela utilização da
primeira denominação, a pedagogia que proponho trabalhar no campo da educação
especial é baseada em processos metodológicos ditos como ‘clownescos’,
sobretudo em pedagogias oriundas da escola de Lecoq. Estas pedagogias
baseiam-se no princípio de que o palhaço é a dilatação do ridículo de cada um e
o trabalho para se chegar a este ‘estado’ consiste em atividades que exponham o
aluno, de modo que este se encontre desnudo em suas bobagens (Lecoq, 2010).
A
pessoa com deficiência intelectual costuma ser extremamente sensível a
estímulos internos e externos e apresenta facilidade para o choro, a raiva,
assim como o sorriso. As reações são espontâneas e instantâneas, pois não
passam pelos filtros de censura moral e necessidade de adequação social que
costumamos ter.
O
campo da educação especial é igualmente desafiante e encantador, estas palavras
não são contraditórias, mas se completam. O palhaço entra como uma alternativa
pedagógica que trabalha o autoconhecimento e volta os olhos e os corações dos
alunos para si mesmos.