Referências
bibliográficas
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BERTOLI, Naiara Alice. “Da
brincadeira ao jogo teatral Reflexões sobre uma prática pedagógica”. In: DAPesquisa– Revista do Centro de Artes da UDESC.
Universidade do Estado de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em
Teatro. Vol.7, (ago 2009). Florianópolis: UDESC/CEART. Anual. ISSN: 1808-3129.
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Breve
resumo
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Esse artigo pretende relatar e
refletir a primeira prática como docente de teatro da autora no ambiente
escolar. Essa experiência esteve inserida dentro da disciplina de Estágio
Curricular Supervisionado: Teatro na Escola I da graduação e foi desenvolvida
no Núcleo de Desenvolvimento Infantil (NDI) na cidade de Florianópolis,
durante o período de março a julho de 2010. Buscando atrelar a sua prática
artística à pedagógica, visava desenvolver uma metodologia para trabalhar na
sala de aula que dialogasse com os seus questionamentos enquanto artista,
sobre a importância e potência do teatro ligado a sua característica de jogo.
Encontrou na prática desenvolvida pela Cooperação Criativa, em São Paulo,
algo que permitiu uma aproximação a esse entrelaçamento. O objetivo foi então
proporcionar a imersão do aluno em atmosferas ficcionais trazidas através de
narrativas, para que pudesse vivenciar, encenar e jogar a partir dessas
histórias e assim, através da instauração desse universo ficcional, as
crianças da turma, de 5 e 6 anos, poderiam jogar profundamente na
narrativa a fim de que pudessem lançar um novo (mesmo que mínimo) olhar sobre
a realidade.
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Transcrições
de citações mais importantes
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A criança
fica literalmente “transportada” de prazer, superando-se a si mesma a tal
ponto que quase chega a acreditar que realmente é esta ou aquela coisa, sem
contudo perder inteiramente o sentido da “realidade habitual”. Mais do que
uma realidade falsa, sua representação é a realização de uma aparência: é a
“imaginação”, no sentido original do termo (HUIZINGA, 1990, p.17).
Vygotsky (2007) destaca a
importância da imaginação no ser humano:
Toda
atividade humana que não se limite a reproduzir fatos ou impressões vividas,
mas que crie novas imagens, pertence a esta segunda função criadora ou
combinadora. O cérebro não se limita a ser um órgão capaz de conservar ou
reproduzir nossas experiências passadas, é também um órgão combinador,
criador, capaz de reelaborar e criar com elementos de experiências passadas novas normas e
possibilidades... É precisamente a atividade criadora do homem que faz dele
um ser projetado para o futuro, um ser que contribui ao criar e modifica seu
presente (VYGOTSKY apud
CABRAL et al., 2006).
Promover a criatividade, a criação e a apreciação artística na escolarização significa estimular o desenvolvimento de uma atuação
tipicamente humana, que vai auxiliar a criança a entender melhor sua
condição de ser criador, simbólico, cultural, histórico, em processo
permanente de (co)laboração social (JAPIASSU, 2007, p.24).
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Comentário
pessoal
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A
autora inicia o texto se perguntando sobre qual metodologia eficiente para Trabalhar
com a faixa etária escolhida, após a seleção da forma de trabalho o texto, os materiais escolhidos e o planejamento em relação a
quem entra em cena em qual momento(as duas estagiarias... é feito com muito
cuidado. o cuidado na seleção das atividades é notório.
Não
entendi quem são esses bolsistas citados. E os alunos especiais, são
deficientes?
A estrutura da escola ajuda na realização
das atividades. A qualidade estética faz
com que os alunos se permitam ingressar na historia, ajudando no entendimento
da mesma. A mudança de uma brincadeira para um jogo teatral é marcado só
pelas regras?
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Utilização
de materialidades no processo criativo
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Báu,
história do Shabush, tecido, fita,
sapato, uma personagem nova...
Apontaram o sapato que a senhora
estava vestindo dizendo que era de Mussa. Esse foi o único elemento do
figurino de Mussa que deixamos aparecer entre o figurino da velha.
Portanto, o cuidado com os
figurinos, com a plasticidade dos elementos que trazíamos para dentro do Seu
Baú, o próprio Seu Baú e o Bauzinho, os sons e objetos para ambientar os
jogos, todo o cuidado em combinar com a Gabriela os detalhes de entrada e
saída de personagens, quem era responsável por o quê durante os jogos (ligar
som, esconder objetos), visando um mínimo de deficiência estética, assim como
o respeito pelas regras estabelecidas pelos jogos, foram todos muito pensados
a fim de conseguir instaurar o universo ficcional em vários níveis, não só
através da contação da história, como também através das sensações.
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FICHAMENTO
A primeira
questão: como introduzir o teatro na escola? Dentre tantas possibilidades de
trabalhá-lo, qual seria interessante para o grupo escolhido – crianças de 5 e 6
anos?
Qual
metodologia então trabalhar a fim de que essas questões pudessem permear o
trabalho visando que as crianças pudessem na prática experienciar essa potência
do teatro?
A
Cooperação Criativa é um núcleo artístico multidisciplinar que desenvolve desde
1998, uma pesquisa em arte educação voltada para crianças de 4 a 9 anos. Trata-se de um
curso livre de circo, que mescla brincadeiras, narrativas de histórias, teatro
e atelier de artes. Todas as atividades físicas e artísticas são sugeridas e
vivenciadas pela história que vai ser contada.
Encontrei
nessa metodologia uma proposta que respondia aos meus desejos de trabalhar o
teatro na escola: instaurar um universo ficcional a ser profundamente
vivenciado pelos alunos a fim de que pudessem lançar um novo (mesmo que mínimo)
olhar sobre a realidade. Definimos então como objetivo geral do processo
proporcionar a imersão do aluno em atmosferas ficcionais trazidas através de
narrativas, para que pudesse vivenciar, encenar e jogar a partir dessas
histórias.
A
faixa-etária das crianças da turma, 5 e 6 anos, de acordo com Vygotsky (2007)
corresponde ao estágio de desenvolvimento referente ao jogo de papéis,
onde a atividade principal é o jogo ou brincadeira. É nessa fase que a criança
através da brincadeira está se projetando nas atividades adultas de sua cultura
e, dessa forma, ensaia seus futuros papéis e valores.
As
primeiras quatro aulas foram realizadas dentro da ficção do conto Shabush retirado
do livro:
“Contos da Arábia”. Escolhemos outra sala para realizar as aulas, já que a
escola tinha estrutura para isso, visto que tínhamos que montar uma ambientação
para a história escolhida.
Na sala, um
canto com tendas de pano para demarcar o canto da história do Shabush.
No mesmo canto um baú (Seu Baú), objeto simbólico que guarda as histórias.
Depois do ritual de abertura do baú (acordá-lo chamando pelo nome e cantando a
música para as fadas fazerem viver uma história) uma narradora retira elementos
(lenços, incenso, lamparina) do baú que antecipam um universo a fim de
sensibilizar os sentidos para as crianças poderem imaginar de que história
esses elementos poderiam ser. Então a narradora conta um trecho da história. Eu
e a Gabriela intercalávamos o papel de narradora por aula.
Jogo de
cooperação: as
crianças desenham as frutas e têm que levar para a cesta que está do lado
oposto da sala. Todos fazem uma fila e então este percurso deverá obedecer aos
poderes de Gênia: (Cênico Simbólico: para que eu consiga transformar
essas frutas do papel em frutas de verdade, vocês também serão contaminados
pela minha magia, assim a magia entra em vocês e então entra nos desenhos. Um
por vez vai se encaminhar até essa cesta. Eu ficarei aqui, em cima dessa árvore
jogando os poderes em vocês. O primeiro, com os poderes da gênia, vai caminhar
como... - personagens e animais que apareceram na história até aqui.
Tchanablapucapistou!!! Pode vir) (Plano da Aula 1).
O
aprendizado foi possível a partir da experiência de assumir esses papéis. Aí a
singularidade do teatro, o conhecimento obtido através da alteridade, dos sentidos
e das sensações, a aprendizagem através da experiência estética.
Esse jogo
vai além do faz-de-conta pois transforma o livre brincar da criança em
um jogo de regras. Ao invés do puro jogo dramático, adicionamos a este o jogo
de regras, como propõe Viola Spolin e daí a nomenclatura jogo teatral que
ela estabelece. O jogo teatral representa a transformação do
egocentrismo (na brincadeira) em jogo socializado. Ingrid Koudela salienta que
o desenvolvimento progressivo da atitude de colaboração leva à autonomia da
consciência e a criança passa da relação de dependência para um ser autônomo.
Assim,
através da imersão no jogo ficcional foi possível que os alunos repensassem ao
menos minimamente as suas posições diante dos fatos reais através dessa
autonomia da consciência. Esse contato com as potencialidades criativas é capaz
de transformar a capacidade de compreensão do mundo, construindo novas formas
de relação, vínculos, pensamento e aprendizagem com o seu entorno.
Portanto, o
cuidado com os figurinos, com a plasticidade dos elementos que trazíamos
para dentro
do Seu Baú, o próprio Seu Baú e o Bauzinho, os sons e objetos para ambientar os
jogos, todo o cuidado em combinar com a Gabriela os detalhes de entrada e saída
de personagens, quem era responsável por o quê durante os jogos (ligar som,
esconder objetos), visando um mínimo de deficiência estética, assim como o
respeito pelas regras estabelecidas pelos jogos, foram todos muito pensados a
fim de conseguir instaurar o universo ficcional em vários níveis, não só
através da contação da história, como também através das sensações.
Uma
dificuldade foi como trazer os alunos com necessidades especiais para dentro
desse mesmo universo. Com a atenciosa ajuda das bolsistas e do professor não
precisamos nos preocupar especificamente com eles, pois a experiência daqueles,
mais capacitados a saber como atraí-los nos ajudou imensamente.
A educação
estética, portanto, trabalha para uma nova sensibilidade através da
ressignificação dos sentidos e da história de vida, o que permite criar novas
formas de projetar-se para o futuro e de se ver no mundo. Possibilita enfim, um
enriquecimento do imaginário e da sensibilidade do ser humano, assim como um
novo olhar sobre o cotidiano que tende a nos automatizar através dos hábitos que
vamos construindo.
Depois
das aulas com foco no conto do Shabush, em função de trocas de horário da nossa
aula, acabamos modificando um pouco o planejamento e ao invés de entrar numa
outra história, fizemos três aulas refletindo sobre esse processo. Vimos nessa
alternativa uma forma para que as crianças pudessem se apropriar mais dos
elementos constitutivos do teatro. Elas escolheram trechos da história vivida,
desenharam o que mais gostaram e depois, em grupos, com figurinos, votaram num
desses momentos dos desenhos para ser improvisado por eles. Assim, com um quem,
o quê e onde definidos, eles tinham um problema a ser resolvido na
improvisação. Aqui também destaco a importância do esforço em chegarem a
possíveis soluções para esse problema como um processo de aprendizagem.
Nessa
atividade eles tiveram bastante dificuldade em pensar no público, em mostrar
algo para o outro que estava assistindo. Justo a transição do livre brincar
para o jogo teatral. Daí a importância que demos para a conversa ao final das
improvisações, chamando a atenção para algumas questões técnicas do teatro. E
para finalizar, fizemos a vivência de uma nova história para que os pais também
pudessem participar. Já era um desejo nosso desde o início e o professor
Adirson nos incentivou percebendo o interesse dos mesmos em entender e
acompanhar o processo.